Artigos e Reportagens

CP Carga com novo modelo operacional

Escrito por Fábio Pires, Nelson Castro, Nelso Silva, Diogo Domingos e Ricardo Rodrigues
Artigos e Reportagens Categoria: Transporte Ferroviário
Publicado em 21 Abril 2013
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O dia de hoje, 21 de Abril, fica marcado pela entrada em vigor dos novos horários da CP Carga. Estes novos horários envolvem grandes mudanças na operação de comboios desta empresa de transporte ferroviário de mercadorias, sendo que a mesma passará a operar os seus tráfegos apenas através de comboios-bloco.

Segundo a Instrução de Exploração Técnica n.º 10 da REFER, um comboio-bloco é "um caso particular dos comboios de mercadorias quando a carga é homogénea, vagões despachados por um mesmo cliente de uma só origem para um mesmo destino e cuja composição é indeformável em todo o percurso. As estações de origem e destino são, respectivamente, as estações de carga e descarga. Podem ser constituídos pelo material vazio afecto a um determinado tráfego." Ou seja, basicamente, é um comboio com composição completamente fixa e definida.

Como este é um tema que tem vindo a ser muito discutido entre a comunidade entusiástica em geral e sendo que a CP Carga tem sido muito falada na comunicação social, muito devido ao assunto da privatização da mesma que já se arrasta há alguns anos e já foi alvo de sucessivos adiamentos, o Terminal Intermodal vem disponibilizar a todos os leitores, um artigo onde pretendemos mostrar as principais alterações que entram hoje em vigor, por zonas geográficas, assim como enumerar algumas vantagens e desvantagens deste novo modelo de operação.

 O comboio "misto" nº 62332 procedente de Gaia com destino ao Entroncamento. Nos últimos tempos, este comboio foi convertido, através da mudança de numeração, naquilo que já o era - um comboio eixo. Era costume trazer vários vagões vazios, formando composições enormes, como se pode ver nesta foto. A partir de dia 21 de Abril, deixa de se efectuar. Foto de Nelson Castro.

 

Em termos gerais, esta restruturação é marcada sobretudo pelo fim dos comboios eixo e dos comboios de distribuição. O conceito dos comboios eixo surgiu em 2004. Estes comboios eram compostos por mercadoria variada e ligavam as cinco principais estações de concentração no país - Gaia, Pampilhosa, Entroncamento, Terminal de Mercadorias da Bobadela e Praias-Sado. A CP Carga pretende assim apostar numa lógica de comboios-bloco, deixando assim de utilizar estas estações de concentração e abandonando a oferta ferroviária em troços de baixa densidade, inadequados ao transporte ferroviário de mercadorias.

Assim, com a alteração imposta, os tráfegos de mercadorias serão operados de forma mais directa entre a origem e o destino da mercadoria. Este modelo operacional já não é novidade para a CP Carga. De facto, a mesma já opera um número significativo de comboios deste tipo, casos do transporte de carvão para a central do Pego, dos comboios das minas de Neves Corvo, dos comboios da Autoeuropa, entre outros.

Este novo modelo operacional prevê também a diminuição do movimento em vários terminais ou triagens e o seu possível encerramento. Este plano vem no seguimento das medidas previstas no memorando da Troika e no Plano Estratégico de Transportes. Numa primeira fase, as triagens que serão mais afectadas, são as da Pampilhosa e do Entroncamento, que irão ver a sua actividade ser reduzida ao mínimo.

Posto isto, é agora altura de os leitores ficarem a conhecer, em primeira mão, as principais alterações que irão ser efectuadas na operação da CP Carga.

 

 

Zona Norte

Gaia, Linha do Minho, Linha do Douro, Linha de Leixões e Ramal de Braga

Começamos então a nossa "viagem" pelo Norte de Portugal, mais precisamente pela Linha do Minho. O serviço Internacional de transporte de madeira "Bosque do Atlântico" (Gaia – Tuy – Gaia) mantém-se, passando agora a ser Louriçal – Tuy – Louriçal, mudando apenas em Gaia de tracção para locomotiva diesel no sentido ascendente e para locomotiva eléctrica no sentido descendente. 

O comboio Internacional "Bosque do Atlântico". Agora passa a ser Tuy - Louriçal. Foto de Nelso Silva.

 

Ainda na Linha do Minho, a grande novidade vai para o serviço de transporte de estilha para Darque, passando a efectuar-se às segundas, quartas e sextas e não diariamente (de segunda a sexta) como acontecia até à data. O comboio procede de Praias-Sado e tal como acontece com o "Bosque do Atlântico", troca de tracção em Gaia. O comboio sai de manhã de Praias-Sado e chega ao início da noite a Darque. O comboio tem algumas paragens ao longo do percurso, como por exemplo Poceirão, Entroncamento e Gaia. Recordo que este comboio era encaminhado até Darque através de comboios eixo entre Praias-Sado, Entroncamento e Gaia, sendo que depois aqui seguia até Darque.

O comboio eixo nº 51335 em 2008, com os vagões de estilha para Darque. O comboio eixo acaba e o comboio passa a ser directo entre Praias-Sado e Darque. Foto de Fábio Pires.

O distribuição Gaia - Darque com os vagões do transporte de estilha. O distribuição acaba mas a estilha continua a ir para Darque, directamente de Praias-Sado. Foto de Valério Santos.

 

Por fim, uma vez por semana, às quartas efectua-se um comboio de madeira procedente de Valença e com destino à Pampilhosa, trocando de locomotiva em Gaia. Mantém o mesmo horário e o dia de circulação.

Outra das grandes mudanças que ocorre na Zona Norte, é a mudança de horário do comboio da Siderurgia de Leandro para Leixões/Gaia. Até agora, o comboio Leixões – Siderurgia Leandro – Leixões circulava uma vez em por dia cada sentido, de segunda a sexta, ao início da tarde. A partir de hoje, este mesmo comboio aumentará a sua frequência para dois comboios diários de segunda a sexta (excepto à quarta, circulando apenas um) e passará a circular de madrugada e ao final da tarde. O comboio Gaia – Siderurgia Leandro – Gaia que até agora circulava em regime especial sem data previamente marcada, passará a circular aos sábados ao fim da tarde.

O comboio de transporte de barras de ferro/aço procedente da Siderurgia Nacional de Leandro (Maia) com destino a Leixões, que irá ver a sua frequência aumentada a partir de 21 de Abril. Foto de Nelso Silva.

 

O comboio que, provavelmente, tem vindo a sofrer mais alterações no que consta ao seu horário é o Gaia – Tadim – Gaia. A partir de Agosto de 2006, deixou de circular de tarde, passando para a noite, sendo um comboio com regime de frequência diário, de segunda a sexta, e por vezes traccionado por locomotiva diesel. O horário manteve-se ao longo dos anos, não sofrendo grandes alterações, havendo algumas circulações especiais de anúncio local de dia. Em Setembro/Outubro de 2012, o Gaia – Tadim – Gaia passou a circular apenas às terças e quintas de manhã. A partir de hoje, o comboio continua a circular apenas às terças e quintas, mas desta vez durante a tarde, transportando madeira. O comboio é quase sempre traccionado por locomotiva eléctrica.

Um comboio especial de mercadorias Tadim - Gaia. Agora passa a circular regularmente às terças e quintas de tarde. Foto de Valério Santos.

 

Relativamente à Linha do Douro, o comboio de transporte de cimento Gaia – Godim – Gaia é o que sofre mais alterações. Há alguns anos, chegavam a haver 7 comboios por semana em cada sentido. O habitual comboio da tarde que circulava de segunda a sexta e ainda um outro que circulava às terças e quintas de manhã, embora com uma composição mais curta. Em Janeiro de 2012, passou apenas a circular o comboio da tarde, sendo reduzido o número de comboios, passando de 7 para 5. A partir de hoje, o "Godim matinal", como era/é denominado pela comunidade entusiástica, voltará a circular. O comboio parte de manhã cedo de Gaia e tem o regresso marcado para o início da tarde e como já acontecia, apenas se efectua às terças e quintas. Assim, deixam de haver 5 comboios por semana, passando a haver apenas 2. O comboio é traccionado por locomotiva diesel em todo o percurso.

O "Godim" da tarde. Este comboio passa agora a circular de manhã, às terças e quintas. Foto de André Lourenço.

 

Continuando pela Linha do Douro, o comboio de transporte de cimento para o Gaia – Pocinho – Gaia, continuará a circular uma vez por semana às sextas, em vez de ser à quinta, como se sucedia até agora. Tem partida de Gaia pela manhã e o regresso está marcado para o meio da tarde. O comboio é traccionado por locomotiva diesel em todo o percurso.

O comboio de transporte de cimento com destino ao Pocinho que, a partir de 21 de Abril, passa a efectuar-se às sextas. Foto de Nelson Castro.

 

Os comboios para Irivo também sofrem algumas alterações. A partir de hoje, haverá mais dois comboios por semana do que o habitual. Às terças e sextas, irá circular o comboio de cimento procedente de Pataias (Linha do Oeste) com destino a Irivo. Entre Pataias e Louriçal o comboio é traccionado por locomotiva diesel. O percurso entre Louriçal e o destino final será com locomotiva eléctrica. O comboio parte de manhã de Pataias e chega a meio da tarde a Irivo. O regresso do comboio tem como destino final a Pampilhosa. O habitual comboio da manhã Gaia – Irivo – Gaia, continuará a efectuar-se, mas apenas às quartas e sextas.

Uma das grandes surpresas, é o comboio de transporte de madeira Gaia – Terminal S. Martinho – Louriçal. Comboio este que, até à data, circulava uma vez por semana e em regime especial de anúncio local. A partir de hoje, este comboio sai de Gaia a meio da tarde e o regresso é ao final da tarde e tem como destino a estação do Louriçal.

Na Linha de Leixões as alterações, ainda que poucas, não deixam de ser simbólicas. Aqui impera o tráfego de contentores e de transporte de barras de ferro/aço da Siderurgia Nacional de Leandro (Maia) para exportação via Porto de Leixões.

Em relação aos comboios de contentores, há uns anos atrás, os comboios "TECO" (Transporte Expresso de Contentores) entre Leixões e Alcântara-Terra eram 2 em cada sentido, circulando sempre de madrugada. Agora existe apenas um. Já há algum tempo, aliás. A única alteração reside sobretudo no horário do mesmo que é adiantado cerca de meia hora.

Teremos ainda um comboio que se realiza de segunda a sexta entre o Terminal de Mercadorias da Bobadela e Leixões, chegando a meio da tarde e regressando de madrugada. Este comboio já há algum tempo que vinha a ser realizado mas em regime de comboio especial de anúncio local e cujo o horário era completamente diferente, pois chegava a Leixões de manhã cedo.

Um comboio de transporte de contentores com destino a Leixões. Uma imagem que vai passar a ser muito comum, uma vez que teremos um TECO entre o T. M. Bobadela e Leixões de dia. Foto de Nelso Silva.

 

Em relação ao transporte de ferro/aço, o mesmo já não é novidade. No entanto, iremos ver a sua frequência duplicada. Passam a haver duas marchas por dia em cada sentido (excepto à quarta), como já foi referido em cima.

Para Leixões há também um comboio de transporte de cimento proveniente de Pataias (Linha do Oeste), às segundas, chegando a meio da tarde. Este serviço será devidamente abordado mais à frente neste artigo.

 

 

Zona Centro

Pampilhosa, Linha da Beira Alta e Linha do Oeste

À semelhança do que se passa nas principais estações de concentração, na Pampilhosa, a grande mudança a registar é mesmo o fim dos eixos e dos comboios de distribuição para a Linha da Beira Alta e Linha do Oeste. Quando se fala em fim, não nos referimos ao fim dos comboios ou do serviços. Apenas deixam de se efectuar comboios de mercadoria diversa, para se passarem a efectuar comboios com carga fixa. Na verdade, estes comboios já há muito que eram feitos só com mercadoria fixa.

No que toca ao transporte de cimento que vem da fábrica da Cibra de Pataias, o mesmo, a partir de agora, irá fazer-se da seguinte forma: às segundas, o comboio destina-se a Leixões, partindo de manhã de Pataias e chegando a meio da tarde ao seu destino. Às terças e sextas, o cimento destina-se a Irivo. Às quintas, o cimento destina-se a Gaia. O horário destes três comboios é sensivelmente o mesmo, excepto, claro, as horas de chegada aos respectivos destinos. Às quartas, o cimento vai para Mangualde, chegando ao inicio da tarde ao seu destino. As composições vazias regressam depois todas à Pampilhosa no mesmo dia, havendo, de segunda a sexta, o encaminhamento das mesmas para Pataias que é feito de manhã. Estes comboios efectuam troca de tracção diesel por eléctrica ou vice-versa no Louriçal.

Relativamente ao transporte de cimento da fábrica da Cimpor de Souselas para o Norte de Portugal, que até agora era feito com recurso a 3 comboios (comboio Souselas – Pampilhosa, comboio Pampilhosa – Gaia e depois comboio Gaia – Godim/Pocinho/Darque), os mesmos passam a ser “praticamente” directos. Digo “praticamente” porque o cimento parte de Souselas todos os dias úteis às primeiras horas de madrugada e destina-se a Gaia, regressando a composição vazia também de madrugada, a Souselas. O encaminhamento destes comboios para Godim, Pocinho e Darque já foi explicado anteriormente, no capítulo da Zona Norte. Ao sábado, o transporte deste cimento não se destina ao Norte mas sim à Guarda. O comboio parte da Pampilhosa de manhã com destino à Guarda, sendo que o regresso (vazio) se faz ao inicio da tarde. Na verdade, este comboio era já uma presença habitual nas tabelas horárias de Sábado. A única diferença é mesmo no horário, que é atrasado. Importa referir que o cimento é encaminhado de Souselas para a Pampilhosa à sexta ao final da tarde e a composição vazia regressa a Souselas à segunda à noite.

Continuando no tópico do cimento, passemos agora ao transporte do mesmo da fábrica da Secil de Martingança para o Porto de Aveiro, para exportação por via marítima. Estes comboios duplicaram a sua frequência, pois até agora era realizado apenas um comboio por dia entre a fábrica da Secil e o Porto de Aveiro, directo e em regime de comboio especial de anúncio local. Assim sendo, o primeiro comboio do dia parte de Martingança com destino à Plataforma de Cacia, às primeiras horas da manhã. Troca de tracção no Louriçal, passando a ser traccionado por locomotiva eléctrica. O segundo comboio, parte de Martingança a meio da tarde, chegando já às primeiras horas da noite à Plataforma de Cacia, trocando também de tracção no Louriçal. De segunda à sexta, ao final do dia, há também uma marcha do Louriçal a Martingança para carregar mais cimento com destino ao Porto de Aveiro. Este cimento é depois incorporado no primeiro comboio do dia de Martingança para o Porto de Aveiro, que pára no Louriçal para realizar a operação de troca de tracção e de acoplamento dos vagões. Não esquecer, pois claro, dos comboios “vai-vem” entre a Plataforma de Cacia e a Triagem do Porto de Aveiro que é feita somente com tracção diesel, de segunda à sexta, de manhã, fim da tarde e à noite, de acordo com os horários das chegadas e partidas dos comboios de Martingança. As composições vazias regressam a Martingança de manhã, de segunda à sexta e à Pampilhosa de noite, de segunda à sexta, com tracção eléctrica, sendo logo depois encaminhada para Martingança, com a habitual troca de tracção no Louriçal.

Comboio de transporte de cimento procedente de Martingança e com destino ao Porto de Aveiro. Uma imagem que será muito difícil de se repetir pois agora o comboio muda de tracção diesel para tracção eléctrica no Louriçal. Foto de Nelso Silva.

 

Os comboios de transporte de cimento, a partir da Cimpor de Souselas, para o Porto de Aveiro, continuam a efectuar-se. Aliás, a sua frequência chega mesmo a ser duplicada! Realizam-se de segunda a sexta, com locomotiva eléctrica até à Plataforma de Cacia. De Souselas para o Porto de Aveiro também continuará a efectuar-se o serviço de transporte de "petcoke", ao fim da tarde, de segunda a sexta.

Regresso da composição vazia de transporte de cimento entre Souselas e o Porto de Aveiro. A partir de 21 de Abril, a sua frequência será duplicada e a tracção entre Souselas e a Plataforma de Cacia passa a ser feita com recurso a locomotiva eléctrica. Foto de Fábio Pires.

 

Para fechar o capítulo do cimento, talvez o tráfego mais significativo nesta zona geográfica, importa referir que os comboios entre as fábricas da Cimpor de Souselas e de Leandro, na Maia, não sofreram qualquer alteração de horário.

O grande destaque da zona da Pampilhosa (mais precisamente da Linha do Oeste), diz respeito à mudança de horário e de dia do comboio de cereais do Ramalhal. Passa para os domingos. Dantes era à terça-feira e à quinta-feira. A composição parte da Pampilhosa de manhã, com destino ao Ramalhal, regressando a composição a meio da tarde mas desta vez para Mangualde, trazendo cereais e rações. Trocam sempre de tracção no Louriçal.

Comboio de transporte de cereais entre o Louriçal e o Ramalhal, na Linha do Oeste. A partir de agora, este comboio deixa-se de efectuar à semana para passar a ser ao Domingo. O descendente procede da Pampilhosa e o ascendente destina-se a Mangualde. Foto de João Pedro Tavares.

 

Relativamente ao transporte de madeira para a fábrica da Soporcel no Louriçal, mais propriamente entre Valença, São Martinho do Campo e Louriçal, o mesmo é feito às quartas (a partir de Valença), e às terças e quintas (a partir do Terminal de São Martinho do Campo). O comboio procedente de Valença, destina-se à Pampilhosa, chegando a meio da tarde. Já o comboio de São Martinho do Campo, destina-se ao Louriçal e a chegada do mesmo faz-se já de noite. A composição vazia segue para Gaia às quartas e sextas de madrugada, seguindo depois para São Martinho do Campo às terças e quintas. Importa referir que a madeira que é agora carregada em São Martinho do Campo, era, até há bem pouco tempo, carregada no Ramal Lousoareais do Lousado. Para o Louriçal, vem também o comboio Internacional "Bosque do Atlântico", passando agora a ser Louriçal – Tuy – Louriçal, mudando apenas em Gaia a tracção para locomotiva diesel no sentido ascendente e para locomotiva eléctrica no sentido descendente, como já foi referido anteriormente.

De notar também o regresso a regular do transporte de madeira de Ponte de Sôr para Mangualde, que se efectua aos sábados, chegando ao seu destino já na madrugada de domingo. Este serviço será abordado mais à frente.

O habitual serviço de transporte de contentores para o Louriçal, continuará a efectuar-se. Às segundas e quartas, o comboio parte de Leixões à hora de jantar e chega ao Louriçal já perto do fim da noite. O comboio regressa a Leixões já de madrugada. Recordo que este comboio, até há bem pouco tempo, era efectuado como sendo um comboio especial de anúncio local e dividido em dois. Havia uma marcha entre Leixões e Alfarelos e depois um seguimento para o Louriçal. O horário era praticamente o mesmo. De notar que são comboios enormes com cerca de 400 metros de contentores. Às terças e quintas, o comboio parte do Terminal de Mercadorias da Bobadela, já depois da hora de jantar, chegando ao Louriçal já de madrugada. Relativamente ao serviço proveniente da Bobadela, o mesmo vai ser abordado mais abaixo.

Mudança também no serviço de transporte de produtos siderúrgios para Alfarelos. Este tráfego, que tem sido regular aos domingos, com a realização de comboios especiais, passará a ser efectuado durante a semana. Os produtos siderúrgicos seguem de Vilar Formoso para Alfarelos, vindos de Espanha, no habitual comboio (que até aqui era considerado comboio de distribuição, apenas até à Pampilhosa) da tarde. O mesmo efectua-se todos os dias úteis, excepto às quintas. A composição vazia segue para a Pampilhosa ao final da tarde, seguindo depois para Vilar Formoso na manhã do dia seguinte (excepto às quintas), sempre com tracção eléctrica.

Um comboio de transporte de produtos siderúrgicos (bobines de aço) para Alfarelos, que agora passa a efectuar-se à semana e com locomotiva eléctrica de Vilar Formoso a Alfarelos. Foto de Nelso Silva.

 

Ainda relativamente ao tráfego de produtos siderúrgicos, importa dar a conhecer o novo tráfego de transporte de sucata vinda de Vicálvaro, em Madrid, com destino à Siderurgia Nacional de Leandro (Maia). O comboio não é regular, pois está dependente das marchas em Espanha. No entanto, por agora, tem marcha marcada às segundas e sextas, partindo de Vilar Formoso durante a tarde e chegando a Gaia já por volta da hora de jantar. Na manhã do dia a seguir, a composição é encaminhada para a Siderurgia Nacional de Leandro. No regresso a Espanha o comboio transporta ferro.

À quinta-feira, o transporte de produtos siderúrgicos dá lugar ao transporte de produtos químicos. Quem se lembra do famoso “Vasco da Gama”, que circulava aos sábados na Linha da Beira Alta e que transportava este tipo de mercadoria, com destino a Estarreja? Este comboio, que voltou a aparecer na nossa tabela de horários já há algum tempo, mas como especial, volta agora a ser regular. Parte de Vilar Formoso à hora de almoço, chegando a Estarreja (Amoníaco) ao fim da tarde. Mais um comboio muito bem composto, com quase 400 metros de cisternas. O regresso é feito também às quintas-feiras, mas de manhã.

O comboio eixo nº 51332 procedente de Gaia e com destino ao Entroncamento que costumava trazer o material vazio de transporte de produtos químicos de Estarreja Amoníaco. O comboio eixo acaba e dá lugar ao comboio Estarreja Amoníaco - Vilar Formoso, às quintas-feiras. Foto de Fábio Pires.

 

Relativamente ao transporte de areia, outrora muito significativo na Zona Centro, temos agora apenas um comboio procedente do Louriçal com destino a Gaia, que é efectuado aos sábados de manhã, chegando a Gaia já depois da hora de almoço. A composição vazia regressa aos sábados ao fim da tarde à Pampilhosa, sendo que a mesma vai a carregar ao Louriçal ao sábado de manhã cedo.

Não esquecer os comboios “volta” entre o Louriçal e a fábrica da Soporcel, que sofreram um reajustamento de horários, segundo as necessidades.

Para finalizar, importa referir que a grande alteração na zona centro não reside apenas nos horários mas sim na mudança de tracção imposta no Louriçal. Todos os comboios procedentes de Ramalhal, Martingança e Pataias cujo seu destino é a Norte do Louriçal, mudam para tracção eléctrica nesta mesma estação. Os mais atentos, certamente deram conta que os habituais comboios especiais entre Martingança e o Porto de Aveiro, entre outros, eram feitos com recurso a locomotivas diesel desde a sua origem até ao seu destino. Com cerca de 80 % do seu percurso feito sob catenária, era impensável continuar-se com este modelo de operação. Isto vai permitir certamente uma redução de custos, sobretudo nos consumos de combustível.

Em relação aos horários, temos obviamente que destacar algumas mudanças quase radicais, como a do Ramalhal que passa para os Domingos. Tanto este tráfego como o da areia são tráfegos bastante irregulares. Vamos ver se se “aguentam”. Destaque também para o regresso a regular do comboio de transporte de produtos químicos para Estarreja e do estabelecimento de comboios regulares (finalmente!) para o Porto de Aveiro e reforço do que já existia. Uma nota final para o comboio de transporte de pasta de papel para a Fontela que, apesar de não ser regular, continua a realizar-se de semana a semana, partindo do Entroncamento de manhã e regressando a meio da tarde.

 

Entroncamento, Linha do Leste e Linha da Beira Baixa 

Como já foi referido anteriormente, estas grandes mudanças passam sobretudo pelo fim dos comboios dos comboios eixo e, por conseguinte, a uma redução das manobras nas triagens. No Entroncamento, isso não será excepção. Aliás, aqui já começaram a ser deslocados efectivos para o Terminal de Mercadorias da Bobadela.

Em relação aos horários, teremos o regresso a regular do tráfego de madeira entre Ponte de Sôr e Mangualde, que será aos sábados. O comboio segue vazio para Ponte de Sôr e no regresso ao Entroncamento trará a composição que já se encontrava no local carregada e no mesmo dia segue para Mangualde. O retorno da composição vazia faz-se ao domingo.

O comboio de transporte de madeira procedente de Ponte de Sôr, que a partir de agora passa a circular aos sábados de noite, entre Ponte de Sôr e Mangualde. Foto de André Lourenço.

 

Em relação às circulações já regulares teremos algumas modificações, nomeadamente no tráfego de contentores para Elvas. Estas circulações efectuam-se todos os dias, de segunda a sábado, mas ao contrário do que acontecia até agora, todos os comboios irão partir do Terminal de Mercadorias da Bobadela, só parando no Entroncamento para troca de tracção. Os comboios de regresso à Bobadela, também irão sofrer alterações. Os mesmos efectuam-se todos os dias, de segunda a sábado, com destino ao Entroncamento e depois seguem para a Bobadela já com outra numeração, mas como continuação do serviço do Leste. Mais uma opção que resulta do fim dos comboios eixo. Este seguimento de material vai efectuar-se de domingo a sexta, com a nota particular de que às segundas seguirá incorporado na composição de vagões de transporte de cereais.

No que toca aos serviços Internacionais, o "Iberian Link" será reforçado com o aumento de uma circulação extra por semana e os restantes a circular pela Linha do Leste, como o serviço de transporte de amoníaco para a Quimigal do Barreiro, apenas sofrerão uma pequena alteração horária, em minutos.

O comboio internacional "Iberian Link" que, a partir de 21 de Abril, irá ter o seu serviço reforçado. Foto de Valério Santos.

 

Quanto à Linha da Beira Baixa, nada de novo. O serviço de transporte de pasta de eucalipto de Ródão para o Entroncamento manterá o mesmo horário e os serviços para o Terminal de Mercadorias do Fundão, Castelo Novo e Alcains continuarão a ser realizados como comboios especiais de anúncio local.

 

Terminal de Mercadorias da Bobadela

No que diz respeito ao tráfego de contentores entre o Terminal de Mercadorias da Bobadela e o Terminal XXI em Sines, este permanece praticamente inalterado com pequenos ajustes nos horários mantendo os três comboios diários em ambos os sentidos com exceção de um dia (quintas) em que a frequência sobe para quatro comboios.

Continuando com o tráfego de contentores, os comboios entre Bobadela e Elvas, que até agora se faziam-se duas vezes por semana, e nos dias em que circula o comboio “Iberian Link” entre o Entroncamento e o Terminal de Mercadorias da Bobadela, irão ver aumentada a sua frequência a partir do dia 21 de Abril para cinco comboios, sendo que estes são feitos com locomotiva eléctrica de Bobadela para o Entroncamento onde é efectuada a habitual mudança de tracção.

Em relação aos comboios entre o Porto de Leixões e o porto seco da Bobadela, haverão dois comboios, um em cada sentido sendo que a circulação destes efectua-se de dia. Para Alcântara também haverá um comboio de contentores com partida do Terminal de Mercadorias da Bobadela ao início da tarde e uma marcha que se realiza ao final da tarde. O serviço de transporte de contentores entre Bobadela e o Louriçal irá ser reactivado uma vez que este serviço foi extinto em inícios do mês de Setembro de 2012. A circulação deste comboio em ambos os sentidos será efectuada nos dias úteis.

Uma estreia que entrará em vigor a partir do dia 21 de Abril será o tráfego de cereais entre Bobadela e Ovar com a realização de um comboio semanal aos sábados. A circulação é feita de madrugada com uma paragem prolongada em Alhandra (onde se encontra a mercadoria), com chegada a Ovar a meio da manhã. O retorno do material rebocado e feito por duas circulações, a primeira efectua-se entre Ovar e Entroncamento no próprio dia e a segunda efectua-se entre o Entroncamento e o Terminal de Mercadorias de Bobadela aos domingos com paragem comercial em Alhandra para deixar os vagões afectos a este "novo" serviço. Recordo que até agora este serviço era feito com recurso a comboios eixo entre o Terminal de Mercadorias da Bobadela, Entroncamento e Gaia e, posteriormente, os vagões seguiam para Ovar em comboio especial.

Os comboios de mercadorias entre o Entroncamento e o Terminal de Mercadorias da Bobadela passam dos atuais dois comboios diários para um, havendo mudança no horário. Os comboios que realizavam o percurso no sentido inverso deixam de existir.

Os horários e as frequências dos comboios de transporte de biodiesel e de cimento provenientes de Alhandra e com destino à refinaria da Galp em Sines e ao Porto de Setúbal, respetivamente, permanecem inalterados. Para finalizar, o comboio de mercadorias entre o Terminal de Mercadorias da Bobadela e Lisboa Santa Apolónia mantém-se, havendo alteração no horário.

Destaque também para o internacional de transporte de peças de automóveis da “DB Schenker” que irá ver a sua frequência reduzida de dois comboios semanais para apenas um. Recordo que estava em vista a criação de um terceiro comboio semanal que, por agora, ficará suspenso. O comboio para a Alemanha sai de Portugal (Bobadela) ao sábado e regressa à segunda.

 

 

Zona Sul

Na Linha do Sul será onde iremos assistir a menos alterações. Como já foi referido anteriormente, os comboios TECO do Terminal XXI continuarão com o mesmo horário. O mesmo se passa com os comboios de transporte de areia e minério entre Praias-Sado, Somincor e as Minas de Neves Corvo.

A única certeza é o fim dos eixos entre Praias-Sado e Entroncamento. Era através dos comboios eixo que a estilha, agora carregada em Praias-Sado, chegava até Darque, no Norte de Portugal (Linha do Minho). A marcha agora é directa, ou seja, entre Praias-Sado e Darque e efectua-se às Segundas, Quartas e Sextas. Parte de Praias-Sado de manhã e chega a Darque já por volta da hora de jantar. Muda para tracção diesel em Gaia. De Praias-Sado, para o Norte de Portugal, mais precisamente para Irivo, também é transportada brita. O transporte é feito às terças e quintas. O horário é semelhante ao "comboio da estilha", chegando a Gaia a meio da tarde. A brita é depois encaminhada para Irivo às quartas e sextas de manhã. A composição vazia regressa a Gaia também de manhã e é encaminhada para Praias-Sado de madrugada. E o que “oferece” o Norte a Praias-Sado? Madeira para a fábrica da Portucel. Esta madeira vem do Terminal de Mercadorias de Tadim e de Darque. De Tadim, o comboio realiza-se às terças e quintas ao final da tarde. O mesmo tem como destino Gaia e aí, às quartas e sextas de madrugada, é encaminhado para Praias-Sado. De Darque, o comboio efectua-se às segundas, quartas e sextas de noite e é directo, excepto o de sexta que fica em Gaia e segue na segunda-feira a seguir, trocando de tracção em Gaia.

Comboio eixo nº 50831 procedente de Praias-Sado e com destino ao Entroncamento. Era neste eixo que a estilha para Darque seguia até ao Entroncamento e a partir daí seguia noutro eixo para Gaia. Foto de Ricardo Rodrigues.

 

Os horários dos comboios de transporte de produtos siderúrgicos entre a Siderurgia Nacional do Seixal e o Porto de Setúbal mantêm-se inalterados. O mesmo se passa com os comboios de transporte de cimento entre Alhandra e Setúbal-Mar. O comboio de transporte de automóveis da Autoeuropa irá continuar com a sua frequência de um comboio por dia em cada sentido entre a fábrica de Penalva e o Porto de Setúbal, efectuando-se com recurso a locomotiva eléctrica. Os horários dos comboios de transporte de Carvão do Porto de Sines para a Central do Pego, também não sofrem qualquer alteração.

 

Para concluir este nosso artigo, achamos que esta medida permitirá não só optimizar os recursos à disposição da CP Carga, sobretudo no que toca às rotações de locomotivas, mas também reduzir custos através da racionalização de tráfegos, da redução da actividade nas triagens e das trocas de tracção diesel para eléctrica em troços que assim o justificam, o que irá permitir uma redução nos consumos de combustível.

Consegue-se facilmente perceber que a estratégia da empresa direcciona-se para os tráfegos maiores e mais rentáveis em detrimento dos tráfegos menos rentáveis e menos significativos. É precisamente devido a isto que, alguns clientes da CP Carga, não estão a aceitar bem esta medida. Os "pequenos" clientes poderão assistir a uma redução da oferta de transporte ferroviário o que poderá levar a que estes optem pela via rodoviária para encaminhamento das suas mercadorias. Sabemos que a CP decidiu avançar com esta medida sem sequer ouvir os clientes e sem ter em conta as reais necessidades do mercado. Mas uma coisa é certa, os clientes têm que se sujeitar ao que existe. É a oferta que dita as leis de mercado e não o contrário.  

Não nos podemos despedir sem antes falarmos do aparecimento da nova empresa ferroviária "MSC Rail", propriedade do segundo maior armador mundial de navios porta-contentores. Uma novidade que veio animar a comunidade entusiástica. A empresa já está oficialmente criada e compromete-se a operar os tráfegos de contentores entre o Terminal XXI de Sines, Terminal de Mercadorias da Bobadela e Entroncamento. Com o inicio de operação da MSC Rail, a CP Carga poderá perder aquele que é um dos seus tráfegos mais significativos, quer em termos de movimento, quer de facturação. 

Um comboio de transporte de contentores procedente do Terminal de Mercadorias da Bobadela e com destino ao Terminal XXI de Sines, traccionado por uma locomotiva eléctrica da série 4700 da CP Carga. No futuro, estes comboios serão operados pela MSC Rail. Foto de João Balseiro.

 

Com a iminência de perder um dos seus maiores clientes - a MSC -, não será arriscado para a CP Carga apostar neste novo modelo operacional? A ver vamos, com o tempo! 

 

Notas:

Fontes: