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Covilhã - Guarda : Preso na máquina do tempo

Escrito por Antero Pires
Artigos e Reportagens Categoria: Transporte Ferroviário
Publicado em 09 Março 2013
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9 de Março de 2013. Há precisamente 4 anos encerrou à exploração ferroviária o troço Covilhã-Guarda. Os 46,5 km mais setentrionais da Linha da Beira Baixa deixaram de servir a população e perdeu-se uma alternativa vital à Linha da Beira Alta numa situação de acidente, com a promessa que em breve teríamos uma linha renovada, electrificada e apta para os dias de hoje. 4 anos e alguns milhões depois, o troço continua encerrado e sem data de reabertura...

...algo que os leitores claramente consideram grave. O Linha da Beira Baixa, em parceria com o Terminal Intermodal, fez o levantamento no terreno do estado do troço Covilhã-Guarda em 16 de Fevereiro de 2013, e pediu a opinião do leitores do site e da página do Facebook da Linha da Beira Baixa através de um questionário no Google Docs que pôde ser respondido durante o mês de Fevereiro, o qual contou com 31 respostas. Olhemos agora para um...

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16 de Fevereiro de 2013, 14:25. Chego à Covilhã, a primeira paragem da minha recolha fotográfica do troço Covilhã-Guarda e também a única onde avistei passageiros.

A Linha da Beira Baixa tem sido na última década alvo de inúmeras intervenções que visavam a modernização para torná-la mais competitiva face às alternativas rodoviárias.

Porém, a electrificação até à Covilhã foi uma faca de dois gumes, pois permitiu à CP a substituição das tradicionais composições Intercidades por automotoras mais desconfortáveis que não foram bem recebidas pelos passageiros. E os resultados estão à vista: O serviço Intercidades perdeu, segundo o Jornal do Fundão, 30 mil passageiros em apenas um ano. Estas automotoras foram o motivo único apontado pela maioria dos inquiridos para a perda de passageiros da linha, seguido pelo encerramento do troço Covilhã-Guarda e pelos horários inadequados. Contudo, mais de 50% dos inquiridos concorda que o conjunto destes motivos têm a sua quota-parte nesta fuga à Linha da Beira Baixa e avaliam, numa escala de 0 a 10, o serviço Intercidades com 3.6 valores e o serviço Regional com 4.5.

Na actual situação os inquiridos preferem o autocarro ao comboio (55% contra 45%), indicando conforto, preço e o tempo de viagem como os motivos mais fortes para a sua escolha. Enquanto falamos deste cenário triste mas real, outro comboio parte da estação da Covilhã.

São 14:35 e o IC542 parte em direcção a Lisboa.

Afastamo-nos agora para Norte, por onde há mais de 4 anos chegava minutos mais tarde a automotora Allan com os seus desadequados horários, conforme 88% das respostas ao questionário.

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Linha em direcção à Covilhã.

Este é o ponto mais meridional do troço Covilhã-Guarda. E também um dos poucos que ainda está activo, pois faz parte da estação da Covilhã e foi renovado e electrificado quando a mesma o foi. Caminhando um pouco mais para Norte podemos verificar que já está tudo preparado para o futuro, com a existência de sapatas para um sinal luminoso. Ao seu lado, o sinal mecânico, virado para o lado da Guarda, permanentemente fechado (pois os seus cabos foram cortados e o losango amarelo removido), proibindo qualquer material de avançar em direcção à Covilhã:

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Da esquerda para a direita: Sapata para um sinal luminoso; antigo sinal mecânico de entrada da Covilhã; local onde chegavam os cabos que controlavam o sinal.

O fim deste pequeno troço electrificado dá-se à entrada da Ponte da Carpinteira, outrora uma ponte onde as automotoras Allan, adequadas para o troço segundo 60% dos inquiridos, não podiam passar dos 20 km/h. Actualmente não existem limitações de velocidade, mas nenhum comboio pode entrar na ponte visto existir um sinal à entrada que proíbe a marcha, embora tenha levado carris novos em toda a sua extensão em 2011.

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Da esquerda para a direita: Fim do troço electrificado; ponte da Carpinteira.

A Ponte da Carpinteira, juntamente com a Ponte dos 8 Arcos sobre a ribeira de Flandres dispunham de acordo com o site da Câmara Municipal da Covilhã de iluminação cénica nocturna. E de facto... a iluminação está lá, mas não me parece nada operacional, com o quadro eléctrico vandalizado, lâmpadas em falta, ou penduradas... tudo completamente dotado ao abandono.

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Da esquerda para a direita: Quadro eléctrico; cabos cortados.

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Da esquerda para a direita: Lâmpadas em falta; lâmpada pendurada na ponte.

E abandono é a melhor palavra usada para o troço daqui para a frente, pois logo a seguir à ponte da Carpinteira, o troço está completamente abandonado e entregue à vegetação. Desde 2009 nada mudou, durante algumas centenas de metros.

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Da esquerda para a direita: Fim do troço renovado à saída da ponte da Carpinteira; começo do abandono total.

A próxima intervenção que este troço viria a sofrer seria na passagem superior do Canhoso.

Esta passagem viria a ser demolida em 2009 para dar lugar a uma mais larga pois a original era demasiado estreita para a estrada que por aí passava. Em 2010 as obras estavam concluídas, desconheço o valor das mesmas. Ao contrário do túnel do Barracão (que veremos mais à frente) nesta passagem foram colocados carris... de 1948.

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Da esquerda para a direita: Passagem superior vista da estada; vista da linha; ano de fabrico dos carris.

Uns metros à frente está uma das mais altas e extensas obras de arte deste troço: A Ponte do Corge. Actualmente o seu destino é incerto, mas chegou a ser dada como certa a sua demolição e substituição por uma ponte em curva, em betão, para qual houve mesmo um projecto (ver página 23 deste documento) e um concurso que acabou por ser anulado em Julho de 2010:

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Ponte do Corge

A nova Ponte do Corge seria a primeira correcção de traçado visível no Covilhã-Guarda, pois a ponte actual é em linha recta. Mas seria uma das poucas, pois nenhum dos planos de modernização contemplam uma eventual correcção do traçado em grande escala. Seria importante ter isso em conta para encurtar distâncias e praticar velocidades superiores como aponta 78% dos inquiridos. A partir de onde nos encontramos agora e até à entrada de Caria, não foi mexida uma única travessa. O troço mantém-se inalterado, pois a grande intervenção só começa aí.

Ao PK 178,5 a linha de repente dá um “salto” de meados do século XX para o inicio do século XXI. Começam aqui as obras que transformaram os 10 km mais velhos do troço Covilhã- Guarda, onde ainda haviam carris de 1889, nos mais novos. Esta empreitada teve a cargo da Somafel, durou desde Março de 2009 até finais do mesmo ano e custou cerca de 5 milhões de euros.

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Da esquerda para a direita: Inicio do troço renovado com o troço antigo ao fundo; placa do MOPTC da intervenção da Somafel.

Este troço de luxo nunca viu um único comboio em serviço comercial nos seus cerca de 4 anos no terreno!

Tudo porque as obras do restante troço mantém-se paradas e o mesmo encerrado... e a vegetação começa aparecer na nova plataforma e abrigo do apeadeiro de Caria.

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Da esquerda para a direita: A vegetação começa a notar-se na linha; e junto aos bancos do abrigo.

No antigo edifício de passageiros de Caria (cuja porta de passagem se encontra trancada) ainda está afixado o horário do antigo serviço rodoviário alternativo entre a Covilhã e a Guarda. Criado logo após o encerramento do troço, este serviço era assegurado por autocarros da Joalto os quais não faziam cobrança de bilhete. Tinham um horário e tempo de viagem praticamente igual ao comboio Regional e foram extintos pela CP em Março de 2012 alegando que a “baixa procura registada neste serviço, comprova que a solução rodoviária com recurso a operadores locais é seguramente a solução de mobilidade mais adequada”.

Poucos foram os inquiridos que revelaram ter usado este serviço, não indo para além dos 26%.

Para ver um dos trajectos efectuados pelos autocarros clique aqui.

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Da esquerda para a direita: Antigo edifício de passageiros de Caria; aviso e horários do extinto serviço rodoviário de substituição colocado na porta do edifício.

O troço renovado segue em direcção a Belmonte, com algumas passagens de nível pelo caminho. Embora em tempos a passagem de nível da estrada entre Caria e Belmonte tivesse barreiras, as mesmas não foram repostas... e até parece que puseram barreiras e sinais estranhos à circulação ferroviária noutro lado...

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Da esquerda para a direita: Passagem de nível outrora com barreiras; corrente e sinal rodoviário de trânsito proibido colocado sobre a linha renovada.

Belmonte é a única estação entre a Covilhã e a Guarda e também a última paragem para passageiros brindada pela modernização. Aqui ficou tudo operacional para um dia receber comboios: Sinalização mecânica, agulhas, placas, abrigos, plataformas, etc.

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Da esquerda para a direita: Edifício de Belmonte-Manteigas; alvanca de sinal mecânico; vista geral da estação.

Em Outubro de 2011 Amândio Melo, presidente da câmara de Belmonte, defendeu a reactivação da linha para fins turísticos. “Não posso aceitar que se tenha gasto o que se gastou e a linha fique abandonada. Podemos potenciá-la em prol da região” afirmou o autarca ao Jornal Notícias da Covilhã. 59% dos inquiridos concordam que seria uma mais valia para a Linha, embora 41% guardem mais reservas, achando que estaria dependente dos moldes de exploração de tal comboio turístico.

Todavia, a actualidade pela estação de Belmonte-Manteigas, parece ser o abandono a julgar pelo vidro partido do (ainda por estrear) abrigo da linha 1 e dos edifícios envolventes da estação:

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Da esquerda para a direita: Vidro partido do abrigo na linha nº1; edifícios abandonados pertencentes à estação.

Este troço “luxuoso que nunca viu comboios” continua por mais 5,3 km até ao PK 188,5, local de difícil acesso, quer rodoviário quer a pé. Neste PK, a linha regressa a meados do século passado, às travessas de madeira e à elevada vegetação que era sua companheira até há 10 km atrás para só voltar a ver obras já às portas da Guarda.

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Da esquerda para a direita: PK 188,5 onde termina o troço renovado; regresso à velha linha.

Chegamos agora à primeira das duas paragens de passageiros onde desde 8 Março de 2009 não houve praticamente alterações.

A verdade é que, a Maçainhas, as únicas coisas que chegaram foram a vegetação e a degradação...

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Da esquerda para a direita: Linha em direcção à Covilhã; linha em direcção à Guarda.

A linha encontra-se em mau estado e o edifício de passageiros, um dos mal estimados (senão o pior) da Linha da Beira Baixa continua a degradar-se a cada dia que passa, estando num estado cuja recuperação estará praticamente descartada para este apeadeiro isolado.

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Da esquerda para a direita: Edifício de passageiros de Maçainhas; Interior do EP.

Outro apeadeiro fora da sua povoação, mas com melhores acessos, o edifício de passageiros de Benespera encontra-se em melhor estado do que o de Maçainhas, embora também careça de melhores cuidados.

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Da esquerda para a direita: Edifício de passageiros de Benespera; Interior do EP.

Na verdade, em Benespera a única coisa que respira de bem cuidado é o depósito de água e a torre de comunicações instalada ao seu lado...

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Antena de comunicações e depósito de água de Benespera.

...isto porque a linha junto a este apeadeiro e durante uma boa extensão encontra-se em muito mau estado, não oferecendo qualquer tipo de segurança a material circulante; muitas travessas foram parcialmente ou totalmente queimadas pelo grande incêndio florestal que dizimou as regiões de Benespera e Maçainhas no verão de 2010.

Encontrar travessas queimadas não é muito difícil, conforme demonstram estas fotos, tiradas numa extensão de apenas 50 metros.

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Várias travessas queimadas junto ao apeadeiro de Benespera.

Nestas condições infelizmente seria impossível uma hipotética reabertura à exploração do troço, enquanto se aguardaria pelo inicio de novas obras, caso os carris tivessem sido todos repostos, como defendem 59% dos inquiridos.

Os carris terminam a algumas dezenas de metros à entrada do túnel do Barracão e não voltam a ser avistados até à entrada das plataformas do apeadeiro do Sabugal. Isto porque em Abril de 2010 foram retirados desta extensão para dar lugar às obras de reforço do túnel do Barracão a cargo do consórcio Spie Batignolles / Monte Adriano.

Todo o túnel foi rebaixado, reforçado e dotado de calhas para cablagem de comunicações. As obras duraram cerca de um ano e meio, custaram mais de 2 milhões de euros e não englobaram a reposição dos carris, mantendo a descontinuidade do troço.

À data de recolha destas fotografias o túnel encontrava-se alagado devido a uma queda de água nas imediações que tornou pantanoso o canal de via a Norte do mesmo.

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Da esquerda para a direita: Canal de via próximo do túnel; entrada Norte do túnel do Barracão.

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Da esquerda para a direita: Interior do túnel; placa do MOPTC da intervenção do consórcio Spie Batignolles / Monte Adriano.

Mas o problema do canal de via sem carris entre o túnel do Barracão e o apeadeiro infelizmente não se resume a terreno pantanoso: As últimas intempéries causaram algumas derrocadas para o leito:

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Derrocada para o canal da via junto ao túnel.

Bem próximo de onde passarão as condutas de fibra óptica. Estes marcos foram instalados ao longo do troço intervencionado e as caixas instaladas junto aos apeadeiros de Maçainhas, Benespera e Sabugal:

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Da esquerda para a direita: Caixas para futuras condutas; marcos por onde passarão as condutas.

A umas dezenas de metros antes do edifício de passageiros do Sabugal encontram-se as travessas e os carris que antes estavam colocados no túnel completamente dotados ao abandono.

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Da esquerda para a direita: Travessas abandonadas; Carris e travessas abandonados.

É também aí que a linha retoma a sua continuidade desta vez até à Guarda. É grave uma alternativa destas estar assim neste impasse há tanto tempo.

A Linha da Beira Baixa seria uma excelente alternativa para a circulação de comboios num caso de acidente e / ou interrupção na Linha da Beira Alta entre a Guarda e Pampilhosa. Um exemplo em que esta linha poderia servir perfeitamente de caminho alternativo para o comboio SudExpress / Lusitânia seria no passado dia 10 de Janeiro de 2013 quando um Regional descarrilou perto de Mangualde, causando a interrupção da Linha da Beira Alta. Sem alternativas o duplo comboio internacional desse dia acabou suprimido.

Situações como estas revelam a importância de restabelecer o quanto antes o troço Covilhã- Guarda e terminar com esta situação grave indo ao encontro da opinião de 87% das respostas dadas.

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Recomeço da linha.

O Edifício de Passageiros pode apresentar sinais razoáveis de conservação mas foi vandalizado, estando completamente aberto (ao contrário de Caria), tendo duas portas com vidros partidos, azulejos destruídos e o relógio da gare desapareceu.

O emparedamento das portas do lado da gare como medida de prevenção ao vandalismo não impediu que as portas do lado de fora sofressem esse acto num edifício que já nada terá para oferecer...

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Da esquerda para a direita: Vidro partido numa porta do lado de fora; local onde já esteve o relógio e azulejos partidos.

ACTUALIZAÇÃO 29 / MARÇO: Os vidros partidos do EP do Sabugal foram substituídos.

Daqui para a frente a linha segue, como já tem vindo desde Caria, um pouco paralela à sua principal competidora, a A23 até se juntar à Linha da Beira Alta.

Sem grandes alterações, enquanto uma se rende ao pó pelos cada vez menos carros que lá passam, outra rende-se à vegetação por nem sequer passar lá nada. A guerra ferrovia vs. rodovia trava-se em vários pontos do país mas aqui com a devida modernização a Linha da Beira Baixa poderia revelar-se competitiva perante uma A23 com portagens, posição tomada por 90% dos inquiridos.

Tal competição poderia passar, para além da reposição do serviço Regional, pela criação de comboios rápidos (com o nome InterRegional) entre a Guarda e Castelo Branco com paragens pelo menos na Covilhã e Fundão.

Expondo esta ideia no questionário, não pude ter a maior harmonia com 65% dos inquiridos a concordar com esta ideia e com um eventual prolongamento ou ligação a Coimbra, 29% a achar que traria uma nova mobilidade à Beira Interior e 6% a questionar-se se na prática vingaria.

Mas para estas ideias todas acontecerem o troço Covilhã-Guarda teria que ser renovado e reaberto... e esta é a grande pergunta? Irá acontecer? Se sim, quando?

Em 2011 o governo de Pedro Passos Coelho apresentou o PET, Plano Estratégico de Transportes, o qual anunciava o encerramento definitivo de todas as linhas ferroviárias suspensas para obras, omitindo o troço Covilhã-Guarda, que continua a figurar do Directório de Rede da REFER, embora na edição de 2014 tenha uma nota anexa informando que se encontra “encerrado à exploração no horário de 2014” não sendo mais referido no documento. Contactei a REFER a pedir esclarecimentos adicionais, contacto ao qual não obtive resposta.

Embora ainda tenha esperanças, a verdade é que cada vez sou mais crente que o troço Covilhã-Guarda ou não reabrirá ou reabrirá mas daqui a imenso tempo. No verão deste ano farão 2 anos desde que se concluíram as ultimas obras nestes 46,5 km o que implicará metade do tempo encerrado sem obras.

Como pergunta final aos leitores do Linha da Beira Baixa, a quem eu agradeço a colaboração para este artigo que há muito queria fazer, questionei-lhes sobre o futuro do Covilhã- Guarda...

29% defende uma reabertura em breve (até 2018), 35% acha que reabre mas daqui a muito tempo e 35% afirma que haverá um encerramento definitivo e um abandono total.

 

Será este o fim da linha? O tempo o dirá.

Antero Pires

Agradecimentos Especiais

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